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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

OS 12 MITOS DO CAPITALISMO.

COM INFORMAÇÕES DO BLOG TUDO EM CIMA


Foram criadas para apresentar o capitalismo de forma credível perante as massas e obter o seu apoio ou passividade. Os seus veículos mais importantes são a informação mediática, a educação escolar, as tradições familiares, a doutrina das igrejas, etc.
- por Guilherme Alves Coelho, no
O Diario.info
São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia burguesa se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos.

Um comentário amargo, e frequente após os períodos eleitorais, é o de que “cada povo tem o governo que merece”. Trata-se de uma crítica errónea, que pode levar ao conformismo e à inércia e castiga os menos culpados. Não existem maus povos. Existem povos iletrados, mal informados, enganados, manipulados, iludidos por máquinas de propaganda que os atemorizam e lhes condicionam o pensamento. Todos os povos merecem sempre governos melhores.

A mentira e a manipulação são hoje armas de opressão e destruição maciça, tão eficazes e importantes como as armas de guerra tradicionais. Em muitas ocasiões são complementares destas. Tanto servem para ganhar eleições como para invadir e destruir países insubmissos.

São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia capitalista se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos. Foram criadas para apresentar o capitalismo de forma credível perante as massas e obter o seu apoio ou passividade. Os seus veículos mais importantes são a informação mediática, a educação escolar, as tradições familiares, a doutrina das igrejas, etc. (*)

Apresentam-se neste texto, sucintamente, alguns dos mitos mais comuns da mitologia capitalista.

1 • No capitalismo qualquer pessoa pode enriquecer à custa do seu trabalho.

Pretende-se fazer crer que o regime capitalista conduz automaticamente qualquer pessoa a ser rica desde que se esforce muito.

O objectivo oculto é obter o apoio acrítico dos trabalhadores no sistema e a sua submissão, na esperança ilusória e culpabilizante em caso de fracasso, de um dia virem a ser também, patrões de sucesso.

Na verdade, a probabilidade de sucesso no sistema capitalista para o cidadão comum é igual à de lhe sair a lotaria. O “sucesso capitalista” é, com raras excepções, fruto da manipulação e falta de escrúpulos dos que dispõem de mais poder e influência. As fortunas em geral derivam directamente de formas fraudulentas de actuação.

Este mito de que o sucesso é fruto de uma mistura de trabalho afincado, alguma sorte, uma boa dose de fé e depende apenas da capacidade empreendedora e competitiva de cada um, é um dos mitos que tem levado mais gente a acreditar no sistema e a apoiá-lo. Mas também, após as tentativas falhadas, a resignarem-se pelo aparente falhanço pessoal e a esconderem a sua credulidade na indiferença. Trata-se dos tão apregoados empreendedorismo e competitividade.

2 • O capitalismo gera riqueza e bem-estar para todos

Pretende-se fazer crer que a fórmula capitalista de acumulação de riqueza por uma minoria dará lugar, mais tarde ou mais cedo, à redistribuição da mesma.

O objectivo é permitir que os patrões acumulem indefinidamente sem serem questionados sobre a forma como o fizeram, nomeadamente sobre a exploração dos trabalhadores. Ao mesmo tempo mantêm nestes a esperança de mais tarde serem recompensados pelo seu esforço e dedicação.

Na verdade, já Marx tinha concluído nos seus estudos que o objectivo final do capitalismo não é a distribuição da riqueza mas a sua acumulação e concentração. O agravamento das diferenças entre ricos e pobres nas últimas décadas, nomeadamente após o neo-liberalismo, provou isso claramente.

Este mito foi um dos mais difundidos durante a fase de “bem-estar social” pós guerra, para superar os estados socialistas. Com a queda do émulo soviético, o capitalismo deixou também cair a máscara e perdeu credibilidade.

3 • Estamos todos no mesmo barco.

Pretende-se fazer crer que não há classes na sociedade, pelo que as responsabilidades pelos fracassos e crises são igualmente atribuídas a todos e portanto pagas por todos.

O objectivo é criar um complexo de culpa junto dos trabalhadores que permita aos capitalistas arrecadar os lucros enquanto distribui as despesas por todo o povo.

Na verdade, o pequeno numero de multimilionários, porque detém o poder, é sempre auto-beneficiado em relação à imensa maioria do povo, quer em impostos, quer em tráfico de influências, quer na especulação financeira, quer em off-shores, quer na corrupção e nepotismo, etc. Esse núcleo, que constitui a classe dominante, pretende assim escamotear que é o único e exclusivo responsável para situação de penúria dos povos e que deve pagar por isso.

Este é um dos mitos mais ideológicos do capitalismo ao negar a existência de classes.

4 • Liberdade é igual a capitalismo.

Pretende-se fazer crer que a verdadeira liberdade só se atinge com o capitalismo, através da chamada auto-regulação proporcionada pelo mercado.

O objectivo é tornar o capitalismo uma espécie de religião em que tudo se organiza em seu redor e assim afastar os povos das grandes decisões macro-económicas, indiscutíveis. A liberdade de negociar sem peias seria o máximo da liberdade.

Na verdade, sabe-se que as estratégias político económicas, muitas delas planeadas com grande antecipação, são quase sempre tomadas por um pequeno número de pessoas poderosas, à revelia dos povos e dos poderes instituídos, a quem ditam as suas orientações. Nessas reuniões, em cimeiras restritas e mesmo secretas, são definidas as grandes decisões financeiras e económicas conjunturais ou estratégicas de longo prazo. Todas, ou quase todas essas resoluções, são fruto de negociações e acordos mais ou menos secretos entre os maiores empresas e multinacionais mundiais. O mercado é pois manipulado e não auto-regulado. A liberdade plena no capitalismo existe de facto, mas apenas para os ricos e poderosos.

Este mito tem sido utilizado pelos dirigentes capitalistas para justificar, por exemplo, intervenções em outros países não submissos ao capitalismo, argumentando não haver neles liberdade, porque há regras.

5 • Capitalismo igual a democracia.

Pretende-se fazer crer que apenas no capitalismo há democracia.

O objectivo deste mito, que é complementar do anterior, é impedir a discussão de outros modelos de sociedade, afirmando não haver alternativas a esse modelo e todos os outros serem ditaduras. Trata-se mais uma vez da apropriação pelo capitalismo, falseando-lhes o sentido, de conceitos caros aos povos, tais como liberdade e democracia.

Na realidade, estando a sociedade dividida em classes, a classe mais rica, embora seja ultra minoritária, domina sobre todas as outras. Trata-se da negação da democracia que, por definição, é o governo do povo, logo da maioria. Esta “democracia” não passa pois de uma ditadura disfarçada. As “reformas democráticas” não são mais que retrocessos, reacções ao progresso. Daí deriva o termo reaccionário, o que anda para trás.

Tal como o anterior este mito também serve de pretexto para criticar e atacar os regimes de países não capitalistas.

6 • Eleições igual a Democracia.

Pretende-se fazer crer que o acto eleitoral é o sinonimo da democracia e esta se esgota nele.

O objectivo é denegrir ou diabolizar e impedir a discussão de outros sistemas politico-eleitorais em que os dirigentes são estabelecidos por formas diversas das eleições burguesas, como por exemplo pela idade, experiencia, aceitação popular, etc.

Na verdade é no sistema capitalista, que tudo manipula e corrompe, que o voto é condicionado e as eleições são actos meramente formais. O simples facto da classe burguesa minoritária vencer sempre as eleições demonstra o seu carácter não representativo.

O mito de que, onde há eleições há democracia, é um dos mais enraizados, mesmo em algumas forças de esquerda.

7 • Partidos alternantes igual a alternativos.

Pretende-se fazer crer que os partidos burgueses que se alternam periodicamente no poder têm políticas alternativas.

O objectivo deste mito é perpetuar o sistema dentro dos limites da classe dominante, alimentando o mito de que a democracia está reduzida ao acto eleitoral.

Na verdade este aparente sistema pluri ou bi-partidário é um sistema mono-partidário. Duas ou mais facções da mesma organização política, partilhando políticas capitalistas idênticas e complementares, alternam-se no poder, simulando partidos independentes, com políticas alternativas. O que é dado escolher aos povos não é o sistema que é sempre o capitalismo, mas apenas os agentes partidários que estão de turno como seus guardiões e continuadores.

O mito de que os partidos burgueses têm politicas independentes da classe dominante, chegando até a ser opostas, é um dos mais propagandeados e importantes para manter o sistema a funcionar.

8 • O eleito representa o povo e por isso pode decidir tudo por ele.

Pretende-se fazer crer que o político, uma vez eleito, adquire plenos poderes e pode governar como quiser.

O objectivo deste mito é iludir o povo com promessas vãs e escamotear as verdadeiras medidas que serão levadas à prática.

Na verdade, uma vez no poder, o eleito auto-assume novos poderes. Não cumpre o que prometeu e, o que é ainda mais grave, põe em prática medidas não enunciadas antes, muitas vezes em sentido oposto e até inconstitucionais. Frequentemente são eleitos por minorias de votantes. A meio dos mandatos já atingiram índices de popularidade mínimos. Nestes casos de ausência ou perda progressiva de representatividade, o sistema não contempla quaisquer formas constitucionais de destituição. Esta perda de representatividade é uma das razões que impede as “democracias” capitalistas de serem verdadeiras democracias, tornando-se ditaduras disfarçadas.

A prática sistemática deste processo de falsificação da democracia tornou este mito um dos mais desacreditados, sendo uma das causas principais da crescente abstenção eleitoral.

9 • Não há alternativas à política capitalista.

Pretende-se fazer crer que o capitalismo, embora não sendo perfeito, é o único regime politico/económico possível e portanto o mais adequado.

O objectivo é impedir que outros sistemas sejam conhecidos e comparados, usando todos os meios, incluindo a força, para afastar a competição.

Na realidade existem outros sistemas politico económicos, sendo o mais conhecido o socialismo cientifico. Mesmo dentro do capitalismo há modalidades que vão desde o actual neo-liberalismo aos reformistas do “socialismo democrático” ou social-democrata.

Este mito faz parte da tentativa de intimidação dos povos de impedir a discussão de alternativas ao capitalismo, a que se convencionou chamar o pensamento único.

10 • A austeridade gera riqueza

Pretende-se fazer crer que a culpa das crises económicas é originada pelo excesso de regalias dos trabalhadores. Se estas forem retiradas, o Estado poupa e o país enriquece.

O objectivo é fundamentalmente transferir para o sector publico, para o povo em geral e para os trabalhadores a responsabilidade do pagamento das dividas dos capitalistas. Fazer o povo aceitar a pilhagem dos seus bens na crença de que dias melhores virão mais tarde. Destina-se também a facilitar a privatização dos bens públicos, “emagrecendo” o Estado, logo “poupando”, sem referir que esses sectores eram os mais rentáveis do Estado, cujos lucros futuros se perdem desta forma.

Na verdade, constata-se que estas politicas conduzem, ano após ano, a uma empobrecimento das receitas do Estado e a uma diminuição das regalias, direitos e do nível de vida dos povos, que antes estavam assegurados por elas.

11 • Menos Estado, melhor Estado.

Pretende-se fazer crer que o sector privado administra melhor o Estado que o sector público.

O objectivo dos capitalistas é, “dourar a pílula” para facilitar a apropriação do património, das funções e dos bens rentáveis dos estados. É complementar do anterior.

Na verdade o que acontece em geral é o contrário: os serviços públicos privatizados não só se tornam piores, como as tributações e as prestações são agravadas. O balanço dos resultados dos serviços prestados após passarem a privados é quase sempre pior que o anterior. Na óptica capitalista a prestação de serviços públicos não passa de mera oportunidade de negócio. Neste mito é um dos mais “ideológicos” do capitalismo neoliberal. Nele está subjacente a filosofia de que quem deve governar são os privados e o Estado apenas dá apoio.

12 • A actual crise é passageira e será resolvida para o bem dos povos.

Pretende-se fazer crer que a actual crise económico-financeira é mais uma crise cíclica habitual do capitalismo e não uma crise sistémica ou final.

O objectivo dos capitalistas, com destaque para os financeiros, é continuarem a pilhagem dos Estados e a exploração dos povos enquanto puderem. Tem servido ainda para alguns políticos se manterem no poder, alimentando a esperança junto dos povos de que melhores dias virão se continuarem a votar neles.

Na verdade, tal como previu Marx, do que se trata é da crise final do sistema capitalista, com o crescente aumento da contradição entre o carácter social da produção e o lucro privado até se tornar insolúvel.

Alguns, entre os quais os “socialistas” e sociais-democratas, que afirmam poder manter o capitalismo, embora de forma mitigada, afirmam que a crise deriva apenas de erros dos políticos, da ganância dos banqueiros e especuladores ou da falta de ideias dos dirigentes ou mecanismos que ainda falta resolver. No entanto, aquilo a que assistimos é ao agravamento permanente do nível de vida dos povos sem que esteja à vista qualquer esperança de melhoria. Dentro do sistema capitalista já nada mais há a esperar de bom.

Nota final:

O capitalismo há-de acabar, mas só por si tal decorrerá muito lentamente e com imensos sacrifícios dos povos. Terá que ser empurrado. Devem ser combatidas as ilusões, quer daqueles que julgam o capitalismo reformável, quer daqueles que acham que quanto pior melhor, para o capitalismo cairá de podre, O capitalismo tudo fará para vender cara a derrota. Por isso quanto mais rápido os povos se libertarem desse sistema injusto e cruel mais sacrifícios inúteis se poderão evitar.

Hoje, mais do que nunca, é necessário criar barreiras ao assalto final da barbárie capitalista, e inverter a situação, quer apresentando claramente outras soluções politicas, quer combatendo o obscurantismo pelo esclarecimento, quer mobilizando e organizando os povos.

(*) Os mitos criados pelas religiões cristãs têm muito peso no pensamento único capitalista e são avidamente apropriados por ele para facilitar a aceitação do sistema pelos mais crédulos. Exemplos: “A pobreza é uma situação passageira da vida terrena”. “Sempre houve ricos e pobres”. “O rico será castigado no juízo final”. “Deve-se aguentar o sofrimento sem revolta para mais tarde ser recompensado.”

domingo, 23 de outubro de 2011

CHEGOU A VEZ DOS BANQUEIROS PAGAREM. MERCADOS DESREGULADOS, SÓ CAUSAM MISÉRIA, FOME E ACUMULAÇÃO DE RIQUEZAS.

ROOSEVELT CRIOU AS LEIS QUE COLOCOU A BANCA DEBAIXO DO CHICOTE.
LORD KEYNES ATÉ HOJE ONDE ESTIVER, MORRE DE RIR DOS CORNETEIROS DO NEO LIBERALISMOS, HAYECK, FRIEDMAM E DOS NOSSOS CORNETEIROS TUPINIQUINS, GUIDIN, E BOB (PETROSSAURUS) FIELDS

O ARTIGO É DE SAUL LEBLON

A REBELIÃO DOS BANQUEIROS
O PIB da Grécia levará um tombo de 5% este ano; já caiu 4,5% em 2010; deve recuar outros 2% em 2012  -no mínimo. Esse é o condensado estatístico de uma regressão social e econômica resultante da aplicação do ajuste ortodoxo exigido pelos credores aos quais a Grécia deve  300 bi de euros.

O purgante foi ministrado a ferro e fogo pela troika formada por  FMI, BCE e Comissão Européia. Neste sábado, depois de um mês fazendo contas em Atenas, a santíssima trindade veio a pública reconhecer o que as ruas bradam há meses: o gigantesco fracasso do manual ortodoxo para resolver uma crise que ele ajudou a criar.

A Grécia não melhorou, admitiu a troika; suas contas pioraram; estão cada vez mais frágeis; permanecerão assim, patinando na insolvência,  por mais uma década.  Alívio?  Quem sabe em 2021.

A explosiva confissão do fiasco veio acompanhada de dois recados, desta vez aos bancos credores: a) preparem-se para uma perda inevitável ('desconto') da ordem  60% do dinheiro aplicado em Atenas; b) façam um colchão de capital próprio para absorver  esse impacto e seus desdobramentos  no salve-se quem puder dos mercados.

 O recado impositivo foi entendido por alguns donos de banco como a evidência de uma guinada regulatória dentro da crise. Algo que Emilio Botín, dono do Santander, já havia pressentido dias antes quando, em reunião com seus pares, convocou a rebelião dos banqueiros: 'Parem o trem da regulação!

Se nas ruas da indignação ainda há quem conceba enfrentar a crise à margem do poder de Estado, do outro lado da trincheira os banqueiros não alimentam dúvidas, nem acreditam em querubins.

Nos últimos dias, dois fatos ilustraram essa duplicidade. Sábado (15 DE OUTUBRO), milhões de pessoas manifestaram-se em um milhar de cidades do planeta contra o colapso econômico impulsionada pela supremacia das finanças sem lei. Na segunda-feira seguinte, 17, de forma inusitada, o banqueiro Emilio Botín, dono do Santander, foi categórico ao arremeter contra a restauração do poder de Estado sobre o setor: "É preciso frear o trem da regulação", sentenciou, emprestando uma bandeira a seus pares em reunião internacional, na Espanha.

Banqueiros falam pouco. Não precisam gastar saliva. O dinheiro fala por eles. O recado de Botín é um sintoma da gravidade alcançada por uma crise que interligou a finança privada e a finança pública numa entropia corrosiva de ajuste incontornável.

A dúvida paralisante é quem arcará com o fardo de elevada octanagem, que pode se traduzir em sacrifícios sociais explosivos ou em perdas patrimoniais robustas.

É justamente a repartição desse ônus que a fala de Don Bottin pretendeu influenciar brandindo contra 'o trem da regulação'.

O impasse entre os interesses das ruas e aqueles condensados na sentença do banqueiro explica a desconcertante incapacidade das lideranças do euro em oferecer respostas ao conflito emblemático desta crise: o explosivo laboratório do colapso grego (leia reportagens do correspondente de Carta Maior em Atenas).

A dívida da Grécia - 300 bi de euros - é impagável. Mas um calote desorganizado significaria a espoleta de uma desastrosa replicação de insolvências latentes (Itália, Espanha, Portugal, Bélgica, Irlanda etc). Para o bem e para o mal, a Grécia é a prefiguração do futuro do euro.
E é isso que inquieta Don Botín.


A Grécia lava nas ruas a roupa suja de um matrimônio que foi harmonioso enquanto a desregulação neoliberal permitiu, a um lado, oferecer crédito ilimitado; ao outro, acomodar um mix de isenção fiscal para os ricos, endividamento público temerário em troca de juros crescentes pagos aos banqueiros e manutenção de serviços sociais à população (estamos falando da Europa).

A ruptura do idílio impõe uma repactuação entre os atores para que o conjunto possa seguir a vida. Precede o passo seguinte da história, porém, a litigiosa distribuição das perdas e danos do ciclo que se fecha.

Há perguntas incômodas na agenda oculta das cúpulas do euro. Quanto os bancos credores estão dispostos a perder é a principal delas. Qual o 'desconto' da dívida que concordam em conceder para evitar uma entropia que, na Grécia, já flerta com a conflagração civil?

Especialistas calculam como inevitável um deságio superior a 50% (já se fala em 60%). Significa que de cada 10 euros emprestados a Atenas, os bancos abririam mão de cinco - mais o alongamento de prazos do saldo e novos aportes para rebocar o país do pântano.

E ainda não é tudo. Antes de conceder o desconto, os bancos terão que fazer provisões. Reforçar o caixa com dinheiro próprio para que o mercado, de um modo geral, tenha a certeza de que a renegociação das dívidas não implicará no esfarelamento das instituições.Em bom português, significa cortar bônus de quem manda no banco -inclusive dos donos, a exemplo de 'Don' Botín. E achatar os dividendos de seus acionistas --o que costuma ter repercussões em espiral descendente no valor das ações. Bancos franceses, por exemplo, detentores de um bom pedaço do mico grego, perderam 45% do valor de mercado este ano.

A lenga-lenga em torno da crise do euro evidencia que essas coisas não acontecerão espontaneamente.

Ao mesmo tempo, não podem mais ser adiadas sob pena de a crise escapar ao controle e ser decidida nas ruas. Quatro encontros europeus de cúpula, todos emergenciais, previstos para acontecer de hoje, sábado, até a próxima quarta-feira,dia 25, ilustram a premência de um desenlace que devolva parâmetros e certezas aos mercados e ao poder.

'Don' Botín e seus pares esticam a corda do seu lado. Querem empurrar o custo de uma recapitalização ampla, geral irrestrita da banca ao setor público- que já arca com o desafio de reforçar em dois trilhões de euros o fundo europeu de estabilização, para evitar que o 'desconto' à Grécia redunde numa cadeia de calotes na periferia da UE.

De onde sairia tanto dinheiro, se a maioria dos Estados já claudica em honrar até os níveis atuais de endividamento? Das respectivas populações, na forma de cortes de gastos, supressão adicional de direitos, salários, empregos e serviços sociais? Quem se habilita a ser o novo Papandreu? Ou o próximo Zapatero? Merkel e Sarkoy hesitam. 'Don' Botin esbraveja. Os impasses se avolumam. E o ruído das ruas já não pode mais ser ignorado.

O banqueiro Emilio Botín sabe muito bem onde vão desaguar esses ruídos e essas perguntas incomodas.

Se a pressão das ruas reverter a fidelidade atual dos governantes aos mercados, o passo seguinte será a imposição de uma dura disciplina regulatória sobre a banca.

Roosevelt, ancorado em pressão social, fez quase uma estatização branca nos EUA, em 1933, obrigando os banqueiros a agir de forma coordenada com políticas públicas de saneamento financeiro, retomado do crescimento e preservação da estabilidade social.

Entende-se a ordem emitida por 'Don' Botín dois dias depois das grandes mobilizações de massa que destacaram o 15 de outubro como um divisor no calendário a crise mundial: "Parem o trem da regulação".

Parar a história é um desejo intrínseco à natureza das classes dominantes. Don Botín está no seu papel. As ruas é que não podem mais ignorar a disputa em torno desse comboio. Sobretudo, não podem abstrair que mudanças na direção do trem pressupõem, no mínimo, ter forte poder de indução sobre o maquinista: o poder de Estado.