Em 2006, quando se aproximava o final
do prazo para filiação a partidos de quem se dispunha a ser candidato às
eleições daquele ano, um amigo promotor, grande defensor dos direitos humanos,
recomendou que eu me inscrevesse em alguma agremiação.
Respondi que não
tinha nenhum projeto desse tipo, mas ele insistiu: quem sabe adiante?
Nem
de longe cogitava então um projeto desses, salvo na remotíssima eventualidade de
vir a ser anticandidato ao Executivo por algum partido que se dispusesse a usar
as tribunas fornecidas pelo sistema para defender posições revolucionárias, sem
nenhuma ambição de vitória eleitoral. Algo que se fazia no passado, mas parece
ter saído de moda; agora, todos querem mais é obter nacos do poder.
Pelo sim, pelo não, acabei concordando com
a sugestão do meu amigo.
Vem de longe minha atitude de deixar uma porta
aberta para as improbabilidades: aos 18 anos, quando tirei a carteira de
motorista, optei pela habilitação profissional, apenas porque o único requisito
adicional era preencher uma página a mais de questões de múltipla escolha.
Adquiri o direito de dirigir qualquer veículo, menos os que transportassem
cargas perigosas; e, claro, nunca o exerceria...
Aceitei uma má indicação
do bom Jorge: ele me recomendou o Partido Verde porque era, no seu entender, o
menos sectário do campo da esquerda.
Mas, depois da inscrição, nem o PV
me contatou, nem o procurei. Ocupei-me de outros projetos. Nunca me convidaram
nem compareci a reunião nenhuma.
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Ao contrário do Jânio, o PV
já decidiu o rumo: direita, volver! |
Postava, contudo, meus artigos na comunidade do
PV no Orkut.
O que lancei em março de 2007, à véspera de mais um
aniversário da quartelada de 1964, foi mal recebido por uma dirigente estadual,
que me respondeu com esta farpa:
"Quem fez a luta armada,
já fez sua autocrítica, na medida que tantas mortes não foram de grande
serventia".
A discussão azedou e eu invoquei o direito que
tínhamos de pegar em armas contra uma tirania:
"Eu participei da luta
armada e considero nossa opção plenamente justificada nas circunstâncias da
época, já que o fechamento de todos os caminhos da luta política, a partir do
AI-5, só nos deixava a alternativa de desistirmos da resistência à ditadura ou
pegarmos em armas".
Ela retrucou:
"Me espanta isso, pq
isso abre precedente prá que numa situação crítica, novamente o fim justifique
os meios.
A menos que eu esteja completamente equivocada, o PV
defende o pacifismo".
Então, face à insistência dela de que eu
deveria respeitar o opção estatutária do PV pela não violência do Gandhi, eu
comuniquei que estava deixando aquela comunidade do Orkut e providenciaria a
desfiliação do partido logo no dia seguinte (o que fiz).
REQUIESCAT
IN PACE
Hoje
reavaliei minha postura em relação àquela desafeta virtual: deveria tê-la
poupado de recriminações e, isto sim, agradecer-lhe efusivamente por ter aberto
meus olhos.
Que alívio estar há cinco anos fora desse partido que acaba
de decidir o apoio a José Serra na próxima eleição municipal!
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Plínio Salgado + Índio da
Costa + Geraldo Alckmin = José Serra atual |
O que
o PV teve um dia de esquerda --meu ex-companheiro de movimento secundarista e
militância revolucionária, Edmauro Gopfert, foi um
verde de
primeira hora-- desmanchou no ar. Hoje não passa de um partidinho fisiológico
como qualquer outro.
Aderir a quem se mancomunou explicitamente com a
extrema-direita na última eleição presidencial é vergonhoso.
Assim como
vergonhoso é somar forças com quem, como governador, iniciou a escalada
autoritária em São Paulo e, mesmo tendo um dia presidido a UNE, não hesitou em
autorizar a invasão da USP por brucutus fardados.
E o caráter ignominioso
de tal aliança aumenta se lembrarmos da administração calamitosa dos tucanos no
Estado, consolidando a ocupação militar da USP, ordenando a blitzkrieg na
Cracolândia e a barbárie no Pinheirinho, dentre outras reincidências nas
práticas ditatoriais das quais pensávamos ter-nos livrado em 1985.
Enfim,
como bom cristão, deixarei os mortos enterrarem seus mortos. O PV e Serra se
merecem.