redação, localizada no centro da cidade,
in loco a situação na cidade e sua visita recebe discretas notas nos jornais e rádios situacionistas, com exceção de O Combate, que repercute exaustivamente o assunto. O embate ideológico passa a se estampar também em outra guerra agora travada entre os veículos de comunicação de oposição (de propriedade da elite econômica) do governo João Goulart e O Combate que, embora sozinho, fosse o mais influente órgão da cidade, e agora passa a ser acusado de insuflador de um gigantesco plano de invasões de fazendas e causador do clima de insegurança no campo e na cidade
No início de março de 1964, os fazendeiros locais pregavam abertamente contra a possibilidade de ser efetivado o decreto da Superintendência de Reforma Agrária (SUPRA), de desapropriação de terras não produtivas às margens de rodovias, ferrovias e açudes federais com objetivo de destiná-las para a reforma agrária. A Associação Rural enviava telegramas alarmistas para todo o país, seus líderes buscaram apoio na Assembléia Legislativa, foram recebidos pelo governador do Estado, visitaram o comando Geral da Polícia Militar, a Secretaria de Estado da Segurança, e o Departamento de Ordem Política e Social (Dops).
Enquanto isto, na cidade, grandes doações foram destinadas para compra de armas, munições e despesas gerais para enfrentar o que chamavam de "onda comunista". O resultado da visita foi que, dias depois, uma comissão nomeada pelo governador esteve em Governador Valadares para conhecer de perto o que havia sido narrado. De parte da presidência da República, não houve, aparentemente, nenhuma manifestação.
No início do mês, Carlos Olavo cobria uma reunião dos grandes fazendeiros quando defendeu a entrega da Fazenda do Ministério para lavradores sem terra e provocou os presentes ao denunciar, sem revelar nomes, que alguns fazendeiros utilizavam irregularmente a propriedade da União. Posteriormente, denunciou publicamente ao representante do Ministério do Trabalho que membros do governo de São Paulo e da Guanabara estavam abastecendo com armas os fazendeiros da região.
A Associação Comercial, aliada dos grandes fazendeiros, foi sede de pelo menos um encontro preparativo para levantamento de fundos financeiros e organização de milícias armadas. Começava-se a falar abertamente em golpe. Chicão retorna de Brasília, de onde ouvira do próprio presidente João Goulart a promessa de que a Fazenda do Ministério seria destinada ao Programa Piloto da Reforma Agrária no Vale do Rio Doce e que o sindicato faria o cadastramento das famílias. O clima se esquentava cada vez mais.
No dia marcado para a Assembléia do sindicato em que se discutiria a forma de distribuição das glebas, os fazendeiros, apoiados por milícias que circulavam extensivamente pelas ruas, conseguiram parcialmente impedir o ato público. Carros com alto-falantes percorriam as ruas criticando a proposta e ameaçando sindicalistas e lavradores. Esperava-se a assinatura do decreto do Supra em 13 de março, o que não ocorreu, dando algum ânimo aos fazendeiros.
Impressionado com o poder de fogo dos fazendeiros, Carlos Olavo sugere e articula uma viagem de sindicalistas a Brasília para denunciar a trama golpista que se desenvolvia em Governador Valadares, com a denúncia da existência de provas concretas, como um depósito de armas. Chicão aproveitou para pedir armas
para também constituir uma milícia. Aparentemente, João Goulart e os oficiais da Casa Militar não lhe teriam dado crédito
.
Dias depois, o ministro da Agricultura, Oswaldo Lima Filho, resolve conhecer
. O Combate denunciou "o parcialismo da polícia desarmando os camponeses de alguns revólveres e velhas garruchas, enquanto as milícias de fazendeiros circulavam afrontosamente por nossas ruas cm carabinas, rifles e até metralhadoras de mão" (OLAVO, 1988, p. 167). Alguns jornais da capital repercutiram o fato, os lavradores foram libertados e um avião do governo do Estado foi a Valadares especialmente buscar Carlos Olavo para uma entrevista com o governador Magalhães Pinto, que prometeu providências mas que, segundo Olavo, pouco poderia fazer pois a milícia dos fazendeiros teria maior efetivo e mais armas que o batalhão de polícia local.
A constante ameaça a sindicalistas e lavradores – vários foram assassinados – causados em parte pela ausência de proteção policial, os levaram a constituir um grupo armado para vigiar o sindicato.
A polícia resolveu prendê-los, o que causou enorme revolta entre os trabalhadores.
O Combate testemunhou o fato. O grupo tentou então destruir a sede do jornal, e novamente foram impedidos pela polícia militar e por lavradores armados.
Poucos dias antes do golpe, o presidente da Supra, João Pinheiro Neto, foi a Governador Valadares ultimar a organização para a destinação da Fazenda do Ministério ao sindicato e para nova tentativa de diálogo com os fazendeiros. Ao logo do dia, boa parte do comércio local cerrou suas portas em sinal de protesto. Carros de som e emissoras de rádio ligadas à elite local pregavam abertamente a derrubada do governo Federal.
Reunidos na Associação Comercial, um grave incidente quase termina em tragédia pois ao tentar discursar, foi várias vezes aparteado pelos presentes, chamado de "comunista", e um dos fazendeiros empunhou arma, ameaçando Pinheiro Neto, defendido por policiais militares e sindicalistas presentes. (OLAVO, pág. 161, 1988).
Foi marcado para 30 de março por às 13 horas a cerimônia de assinatura da doação da Fazenda. Naquela manhã, quando dezenas de lavradores já estavam no local aguardando o início da solenidade, um telefonema do ministro da Agricultura, Oswaldo Lima Filho, cancelou o evento sob a justificava de uma grave crise institucional. O mesmo fez o secretário de Governo do Estado, José Aparecido de Oliveira, que representaria o governador Magalhães Pinto.
O clima de inquietação tomou conta da cidade, os boatos se multiplicaram, e uma milícia formada por quase cem pessoas foi tentou assassinar Chicão disparando centena de tiros na sede do sindicato, aproveitando-se que seus companheiros estavam desde cedo na Fazenda do Ministério. Chicão resistia, também disparando de dentro do prédio, e acabou por matar um dos jagunços. A polícia chegou, dissipou o grupo e o prendeu. Um repórter de
O Combate e a gráfica que o imprimia.
O rádio começou a divulgar pronunciamentos do governador e de lideranças locais. Não havia dúvida de que a cidade iniciara prematuramente o que no dia seguinte se configuraria o Golpe Militar com a descida do general Olímpio Mourão Filho da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora, para o Rio de Janeiro. Governador Valadares amanheceu o 31 de março tomada por milícias dos fazendeiros, que destruíram sedes de sindicatos, prenderam lideranças dos trabalhadores, destruíram a sede de
Borges, Maria Eliza Linhares. Representações do universo rural e luta pela reforma agrária no Leste de Minas Gerais. Rev. Bras. Hist. vol.24 no.47 São Paulo 2004.
CARVALHO, André & BARBOSA, Waldemar. Dicionário biográfico Imprensa Mineira. Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 1994.
O Foca. Jornal Laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade do Vale do Rio Doce. 2001
PEREIRA, Carlos Olavo da Cunha. Nas terras do rio sem dono. Rio de Janeiro, Codecri,
BIBLIOGRAFIA
Durante o exílio, julgado à revelia em Juiz de Fora, Carlos Olavo foi condenado a oito anos de prisão pela "subversão" em Governador Valadares. O jornalista retornou quase desapercebido à cidade que o expulsou logo após a Anistia Geral (1979).
Em 2000, já respirando outros ares, a cidade o acolheu com entrevistas em jornal, Aula Magna para o curso de Comunicação Social/Jornalismo na Universidade do Vale do Rio Doce, edição comemorativa do jornal laboratório do curso de Comunicação Social e inauguração de laboratório de Jornalismo que levou seu nome.
Em sua palestra, Carlos Olavo da Cunha Pereira incentivou os alunos a "resgatar a história de rebeldia que seu jornal soube pregar". No dia seguinte, ele foi recebido solenemente na Prefeitura Municipal. Em 2003, a Câmara Municipal o homenageou com o título de cidadão valadarense. Nunca mais houve um jornal de oposição da cidade.